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A rainha das rádios EBC

  • Jun 6, 2016
  • 3 min read

Conceição, eu me lembro muito bem... Mas não só eu.

Por força dos tempos em que os militares eram assediados pelos políticos, período em que tais vivandeiras passavam pelas sentinelas sem o menor constrangimento, sempre dispostos a bater continência aos comandantes dos quartéis, havia uma grande disputa no seio das forças armadas.

A despeito do reiterado discurso de coesão entre as armas, Emilinha Borba era a favorita da Marinha, enquanto Marlene era a estrela do rádio que guiava a Aeronáutica. Já o Exército, berço da aviação militar, porém atento às preferências dos fuzileiros navais, preferia adotar um silêncio suspeito, dependendo da ordem do dia.

O fato é que a eleita rainha do rádio voava absoluta pela FAB, escoltada pela esquadrilha da fumaça, na tranquilidade de um céu de brigadeiro bonito e solteiro, slogan da campanha presidencial de Eduardo Gomes, que não repetiu no âmbito nacional a façanha da ilustre representante da força aérea.

Ironia do destino, venceu Getúlio, aquele a quem o rival ajudara a fazer as malas para deixar o Catete. Além de não ser um galã, era casado com dona Darcy, pai de Alzirinha e três marmanjos menos votados. Nas entrelinhas das pautas e agendas oficiais, sabia-se que o velho que voltava às paredes das repartições e autarquias era amante de uma atriz do teatro rebolado, Virgínia Lane. A famosa corista, coroada como a vedete do Brasil pelo presidente, após arrebatadora performance na revista musical Seu Gegê, homenagem ao então ditador, assumiria o affaire após o suicídio do caudilho. Na época, sem Lei Sarney ou Rouanet, a imprensa golpista chamava a esposa de casa civil, enquanto o objeto da pulada de cerca constituía a estratégica casa militar. Já os jornais impressos e falados da esfera situacionista recebiam as mesadas de sempre, como ocorre até hoje com as publicações progressistas.

Talvez a metralhadora giratória ponto 100, comentário da vivandeira Sarney a Machado sobre o calibre de uma provável delação da Odebrecht, tenha inspirado o presente artigo; ou quem sabe a morte de seu aliado Passarinho, correligionário e signatário do AI5. Ou também a recondução por uma liminar do STF do recém-nomeado presidente da EBC ao comando do traço de audiência da TV Lula e da Voz do Brasil, absurda imposição criada por Getúlio como Hora do Brasil. Era hora de se desligar o rádio, que viveu o auge no reinado do recém-falecido Cauby, cujas roupas eram rasgadas pelas fãs na porta da Rádio Nacional, hoje uma emissora da EBC.

Entretanto, creio que o motivo que me fez acordar com essa histórica salada na cabeça não foi o noticiário de ontem, mas a sopa batida dos restos de tudo isso, simbolizada pela opção dos caciques não índios pelos aviões da FAB.

Pela propriedade transitiva, presidentes dos 3 poderes, ministros e outras tantas autoridades optariam indiretamente por Marlene e não por Emilinha, coitada, pois ninguém quer um navio para visitar as bases eleitorais a partir do Paranoá. Mas, pensando bem, a favorita da aeronáutica foi destituída post-mortem da honraria.

Para o bem da justiça, Dilma, apesar de ter sido proibida de utilizar a FAB em suas turnês e patéticos shows pelo país, foi novamente coroada como rainha das rádios da EBC, onde brilha a Rádio Nacional. Na cabeça, em vez da coroa de Marlene, vento estocado, contido pelo laquê premium by Kamura.

Já o verdadeiro rei - procure saber quem é -, quase profético, encerrava assim o seu maior sucesso:

Só eu sei / Que tentando a subida desceu / E agora daria um milhão / Para ser outra vez Conceição.

Como ressalva ao vaticínio musical gravado pelo ídolo, a concepção do ditador do PT exigiu que dessem muito mais que um milhão: é pra pagar, é pra pagar!


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